quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os Incríveis Personagens do MANICOMICS





Uma história é a narração de um fato ocorrido com alguém. Este alguém é o personagem. O Manicomics publicava histórias de vários tipos, em algumas delas o foco era a história em si e os personagens serviam apenas para estas narrativas, algumas com inspirações em causos, contos ou vida real. Aqui vamos explorar os personagens "de linha", ou seja, aqueles personagens que viviam muitas histórias, apareciam em várias edições e, por isso mesmo, ficavam na memória e coração dos leitores.



Apache, o macaco-índio (de Edicarlos): Era uma vez um macaquinho travesso e boa praça que usava uma capa e um capuz porque queria ser super-herói. Com HQs e tiras nonsense, Apache invariavelmente entra em enrascadas graças a seu amigo o Coelho Maluco. 


Bezerro Bizarro (Lene Chaves): A exemplo dos desenhos animados de animais da Hanna-Barbera, cada aventura do Bezerro Bizarro é explora uma determinada situação sem conexão cronológica com aventuras anteriores nem posteriores. As ações do personagem, risonho e alegre, misturam de infantilidade e insanidade compondo um diálogo extremamente divertido em sua parceria com o Castor Castro, que poderia ser visto como um "escada" ideal para as peraltices do Bezerro Bizarro mostradas nas HQs.


Cronium (Geraldo Borges): Tony Barreto durante uma excursão  cai acidentalmente num tonel de um produto químico desconhecido e torna-se invulnerável. Trajando uma roupa especial ele combate os Democlocks (criaturas metade monstro, metade robô) que aparecem misteriosamente causando pânico e destruição. Outros inimigos frequentes de Cronium são "os caras do projeto" misteriosos soldados equipados com armas de alta tecnologia que surgem e desaparecem misteriosamente. Ronaldo Mendes desenhou algumas aventuras do Herói Invulnerável com textos de JJ Marreiro. Uma curiosidade é que originalmente o personagem chamava-se Steel Man.


Cumpade Zé & Cumpade Mané (Daniel Brandão): Moradores de alguma cidade qualquer de um interior qualquer, essa dupla de caipiras tece reflexões e críticas indo dos temas mais banais aos mais profundos com um humor muito leve e solto. O Cumpade Zé expressa um olhar mais sábio enquanto o Cumpade Mané manifesta uma clara displicência intelectual.


Exosec (Asteca & Sergio Otomo): Dotado de uma armadura e equipamentos de alta tecnologia, o personagem é um reflexo da influência do gênero tokusatsu com referência a personagens como Kamen Rider e Esquadrão Winspector. No aspecto visual é possível ver algo de Homem-Aranha e Homem de Ferro embora isto não pareça proposital. O personagem foi originalmente criado para uma mega-saga de centenas de páginas infelizmente o Brasil não é terreno fértil para este tipo de produção, principalmente no meio alternativo.


Kário (Jean Okada): Um peregrino com uma percepção apurada que vai além do mundo material. Situado num ambiente de fantasia que remete às civilizações pré-colombianas, Kário propõe uma jornada que une simplicidade e profundidade.




Lucy & Sky (JJ Marreiro): Duas criançinhas em constante questionamento sobre o mundo que as cerca. Lucy é ativa, crítica, intelectual e engajada; Sky é ingênuo e desligado. 






Monga (Cristiano Lopez): Um andarilho que apronta muitas confusões em um mundo repleto de bárbaros feiticeiros e dragões. As influencias de Sérgio Aragonés são patentes, mas com um olhar um pouco mais clínico se percebe a influencia de John Buscema e seu Conan, entretanto sob a ótica do humor.



Mulher-Estupenda (JJ Marreiro): Uma super-heroína nos moldes clássicos cujas aventuras se passam nos anos 40 até início dos 60. Com a ajuda do parceiro mirim Rapaz Assombroso ou em aventuras solo, a Estonteante Mulher-Estupenda enfrenta cientistas malucos, gângsteres, robôs gigantes e malfeitores encapuzados sempre voltando para casa ao fim do dia para tornar-se a pacata professora do primário Carol Rosas. A personagem estreou em 1998, numa publicação própria, com um traço mais cartunizado, no Manicomics as aventuras passaram a ser desenhadas referenciando o traço dos artistas da Era de Ouro.


Noite (Daniel Brandão): Durante seu primeiro período na Oficina de Quadrinhos da UFC , por volta de 1995, o Quadrinhista Daniel Brandão recebeu o desafio de escrever uma HQ de uma página com personagem próprio. Para cumprir a missão o artista lançou mão da criatividade e apresentou um guerreiro urbano obcecado por justiça, mas constantemente atacado por flashes de um passado perturbador. Graficamente as aventuras iniciais do noite já apresentavam temas mais maduros e refletiam o modo como o próprio herói via o mundo: sem meios tons.   


Rato do Prédio (Alexandre Vidal also know as Falex): Em sketchtown os personagens são explorados e oprimidos por uma grande corporação que lucra milhões às custas de uma exploração cruel e desumana. Todos sofrem resignadamente até que um cartum, o Rato do Prédio, ergue-se contra o sistema. Apesar de trata-se de um Rato, o personagem de Falex foi inspirado num cachorro do autor. Outra curiosidade é que o vilão é homônimo do criador da série Falex.


Red Roger Chilli Peppers (Denilson Abano): Um dos primeiros, senão o primeiro personagem de quadrinhos e tiras assumidamente Nerd de cultura pop. Red é um garoto de inteligência privilegiada que, de tão mergulhado no universo da ficção, não consegue se relacionar normalmente com ninguém, exceto talvez com seu amiguinho Anderson Lauro, outro personagem de Denilson Albano que acabou ganhando tira própria, álbuns e até um fã clube.

SIL (Edvan Bezerra): Treinada por um poderoso mago, aprendeu desde cedo a usar seus dons para combater as forças do mal protegendo esta dimensão de destruidoras criaturas errantes. 






Zohrn (JJ Marreiro): Publicado originalmente em 1994 no Pergaminho (primeiro fanzine de RPG do Brasil segundo a Revista Dragon Magazine), o personagem surgiu nas mesas de RPG e foi ganhando mais dimensão e personalidade com o tempo. O Elfo Ranger (para alguns um Elfo Bárbaro) peregrina a procura de aventuras e perigos que possam ser rentáveis. Suas aventuras são auto-contidas e algumas vezes suas missões são compartilhadas com a maga Lenka ou a elfa guerreira Pandora, que parecem cientes dos segredos obscuros do passado do Elfão Pouco-Tato. Balanceado aventura e humor Zohrn aprasenta uma interpretação da figura dos Elfos alternativa à elegância, sobriedade e sofisticação dos famosos elfos de J.R.R. Tolkien. 


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

SINTONIA MANICOMICS: Diêgo Silveira entrevista Daniel Brandão









Em 2012, o Jornalista Diêgo Silveira Maia (também ilustrador e professor de desenho e Arte Sequencial) procedeu uma série de entrevistas sobre o Manicomics com seus editores e criadores. No contexto das comemorações de 20 anos de Manicomics estes aúdios serão disponibilizados aqui no Manicomicsblog.

 Clique no player ou faça o download para ouvir o áudio. Apresentação: Diêgo Silveira; Edição de Áudio: JJ Marreiro; Entrevistado: Daniel Brandão.




MAIS:
http://manicomicsblog.blogspot.com.br/2016/03/sintonia-manicomics-diego-silveira.html

http://manicomicsblog.blogspot.com.br/2016/05/sintonia-manicomics-diego-silveira.html

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Manicomics na Wizard ( DE NOVO) !

A Revista Wizard era um Guia das coisas mais legais dos quadrinhos, uma revista especializada que falava de HQs, e um pouco de cinema, animação e séries. Leitores de quadrinhos e profissionais da área acompanhavam a revista rigorosamente. Aparecer em qualquer de suas páginas era destaque para o currículo. E o Manicomics tinha aparecido na seção Fanzine de Sérgio Miranda com uma apreciação bem positiva (clique AQUI pra ver). Agora imagina a surpresa dos editores ao adquirir o exemplar de Julho (1997) e se deparar NOVAMENTE com o Manicomics. Foi uma alegria e um estímulo para continuar a melhorar nosso trabalho. A publicação na seção FANZINE foi recebida como um prêmio. Mas um prêmio só vem após muito esforço e dedicação. A maioria das pessoas só conseguem ver a badalação, a comemoração, mas qualquer vitória é feita de suor e trabalho duro. E esta é a melhor parte do processo: o momento em que vc está dedicando seu esforço, fé e energia à sua produção. O resto é consequência.





sábado, 30 de julho de 2016

Por que o MANICOMICS marcou época?






Antes de mais nada vamos colocar as coisas em perspectiva: Hoje as possibilidades de impressão e publicação de modo independente são inúmeras. É possível fazer uma edição por demanda, é possível publicar material de luxo com capa dura, verniz, caixinha especial, formatos widescreen, é possível fazer capa e miolo colorido, tudo isso a preços viáveis, principalmente se houver um esquema de venda amarrado como crowdfunding ou sites de venda. É possível publicar tudo apenas online de graça em blogs ou sites , e em alguns casos é possível publicar e ser remunerado por isso. Não estou dizendo que agora nos anos da década de 2010 seja baratinho ou seja moleza editar ou publicar qualquer coisa, entretanto é infinitamente mais fácil que nos anos da década de 1990, quando começa nossa história.
 
Existiam publicações independentes feitas de maneira profissional impressas offset, mas esse material era mais caro se produzir e mais caro de distribuir e a grande maioria dos produtores de material independente não tinha esse tipo de facilidade. Os valores eram proibitivos para uma produção independente.

Em Fortaleza, desde 1985 mais ou menos, o PIUM, jornalzinho da Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará era produzido na gráfica da UFC, a Imprensa Universitária. A publicação, impressa em offset, trazia matérias entrevistas e produção de quadrinhos dos alunos e professores da Oficina de Quadrinhos. Mas veja, havia uma instituição (a Universidade Federal) bancando a produção do PIUM, isto não nos permite qualificá-lo como "fanzine" ou como "produção independente", que como bem diz o nome trata-se de (fã + magazine) uma produção desvinculada dos grandes meios de produção ou instituições. O custo integral dessas publicações sai exclusivamente do bolso de seus autores/produtores.

Estreando no Brasil em 1965 com o boletim de ficção científica feito por Edson Rontani chamado "FICÇÃO", os fanzines eram impressos e distribuídos artesanalmente, inicialmente por uso de mimeógrafo e posteriormente de modo xerografado. Os seriados das matinês, os quadrinhos antigos, com personagens que não estavam mais nas bancas de revistas, ganhavam o mundo nas capas e páginas de publicações como Historieta (Oscar Kern), Valdir Dâmaso (Gibisada), O Castelo das recordações (José Magnago) e Grupo Juvenil (Jorge Barwinkel). 


Especificamente nos anos 80 e 90 proliferaram os fanzines de música e os de estética punk. Embora algumas dessas publicações possuíssem um cuidado editorial, uma maior atenção às informações e imagens, a grande maioria era feita de modo grosseiro, talvez pelo próprio contexto do universo Punk ou do Heavy Metal. Acontece que essa estética Punk/Metaleira ficou no imaginário popular associada à produção fanzineira. Os fanzines desse tema eram muitos e todo bom apreciador de som pesado em algum momento se deparava com essa produção.

Meados dos anos 90 os RPGs começam a ganhar popularidade no Brasil e à partir do Pergaminho (editado por mim e pelo Afrânio Bezerra de Souza) considerado o primeiro fanzine de RPG do Brasil os Rolling Playing Games entram no circuito da fanzinagem. Como Afrânio trabalhava com design e programas gráficos, o Pergaminho era editado no computador, depois tinha as matérias impressas, depois recebia as ilustrações (que eram reduzidas em xerox e coladas nos espaços vazios), recebia as páginas de HQs também reduzidas em xerox e coladas no boneco (nota: scanner não era coisa simples de conseguir) e após todo esse processo era reproduzido em xerox. 

Junto com Fernando Lima, produzi também o Relatório da Situação, o fanzine informativo do Grupo Avançado, clube de Ficção Científica e Jornada nas Estrelas que entrou para a história do movimento trekker sendo citado em livros e artigos deste tema. 

Essas experiências com o Pergaminho e com o Relatório da Situação, ambos com seu visual clean, sem dúvida influenciaram o surgimento do Manicomics. Mas o fato é que: Havia uma forte preconceito com fanzines.

Os leitores, graças a uma política mais democrática de importação de material impresso, tinham acesso a revistas e livros importados. Era possível adquirir numa banca no centro de Fortaleza, por exemplo, a revista Starlog  — que era um fanzine americano feito por fãs de Sci-Fi. Materiais gringos de alta qualidade estavam inundando as bancas e as prateleiras de quem tinha algum conhecimento da língua inglesa. Todos esses leitores de material importado ajudavam a difundir o valor da qualidade gráfica de um produto. Somado a isso, lembre-se que a estética punk era feita de sujeira, colagens descuidadas, letras garranchudas, logotipia quase ilegível, linguagem de grafitagem de gangue tudo isso resumido na pior acepção do termo poluição visual. Aqui vale uma ressalva, claro que é possível usar todos esses elementos eram bom design e boa comunicação visual para seu público específico, infelizmente não o eram para o grande público, com isso todas as vezes que alguém queria denegrir um projeto de comunicação visual usava a expressão: "parece um fanzine". Isso pegava mal para os fanzines e ajudou a solidificar na cabeça dos leigos que se era fanzine era obrigatoriamente: ruim, sujo, malfeito, sem critério, ilegível.


A Logotipia inicial do Manicomics foi desenvolvida por Daniel Brandão e Eduardo Ferreira. A parte de editorial, organização dos textos, diagramação interna foi feita por mim junto com o Eduardo Ferreira. O Daniel Brandão assinava como editor, mas o conselho editorial (Daniel, Geraldo Borges e JJ Marreiro) decidia o que entrava e o que não entrava em cada edição. Desde o início existiam algumas preocupações que eram partilhadas por toda a equipe:
-Fazer um produto limpo, legível, com boa comunicação visual
-Publicar histórias coesas, autocontidas, fáceis de ler e entender
-Colocar o menor preço de capa possível para que o maior número de pessoas pudesse comprar
-Procurar a melhor xerox para que traço e texto ficassem legíveis e apreciáveis
-Reunir artistas cujo objetivo fosse contar histórias de modo claro e objetivo
(Neste ponto vale lembrar que os colaboradores do Manicomics foram um dos principais motivos para o contínuo progresso da qualidade da publicação. Cada colaboração que chegava era uma nova inspiração e um novo estímulo. Aldairton, Antonio Eder, Caetano Neto, Denilson Albano, Edvanio Pontes, Edvan Bezerra, E.C.Nickel, Falex, Gian Danton, Jean Okada, Lene Chaves, Ronaldo Mendes, Wagner Francisco estavam entre os autores qua ajudaram o Manicomics a voar tão alto).

Dentro desse contexto no qual a linguagem da época era a sujeita e o descuido, no qual todo o material independente era feito em xerox, algumas bastante descuidadas, o Manicomics surgia como uma lufada agradável de vento num dia terrivelmente quente. Era como ver a esperança em meio a um mundo de trevas. Não consigo contar —ao mostrar o Manicomics— quantas milhares de vezes ouvi de leitores, artistas, jornalistas e críticos a frase: "Cara, isso é muito bom! Nem parece um Fanzine!"

quarta-feira, 11 de maio de 2016

As 3 Regras do Quadrinho Cearense (por Luís Carlos Sousa)



AS TRÊS REGRAS DO QUADRINHO CEARENSE

Este ano o Manicomics faz 20 anos. Para quem não sabe, Manicomics foi (talvez) o mais importante fanzine de quadrinhos da história das HQs cearenses. Durante seus anos de publicação (a qual envolvia impressão de baixo custo e distribuição relativamente regular), funcionou como uma nau desbravadora para um grupo emergente de novos autores, os quais iam do experimentalismo aos estilos clássicos com desenvoltura e comprometimento, levando-os a serem laureados três vezes com o HQ Mix, mais importante premiação brasileira da nona arte.

Apesar dos vários bons nomes que passaram pelo Manicomics, três se destacam não somente por terem sido os criadores e editores do título, mas pelo impacto que seus trabalhos tiveram na identidade e mercado de quadrinhos cearenses como um todo e que podem ser sentidos até hoje: JJ Marreiro, Daniel Brandão e Geraldo Borges. Em sua homenagem, nesse texto quero contar as histórias sobre eles que me levaram a criar as três regras do quadrinho cearense.

FAÇA PORQUE AMA: Era 2011. Eu estava participando do meu primeiro FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) com um pequeno grupo de cearenses e, apesar de muito empolgado, me sentia um peixe fora d’água, com algumas poucas (e bobas) revistas xerocadas, enquanto outros artistas tinham livros com capas cartonadas e lombadas costuradas. O sentimento de desistência me assaltava como um saci na mata escura. Geraldo Borges chegou lá pelo segundo ou terceiro dia do evento. Ele já era relativamente conhecido, tendo participado de edições americanas de super-heróis e recebendo elogios rasgados de grandes autores. Geraldo é o típico cara que consegue agradar gregos e troianos com seu jeito ligeiro de andar e conversar e seu convidativo sorriso, como alguém cujo líquido amniótico era altamente concentrado em cafeína. Em sua primeira noite, ele encontrou um tempo para jantar conosco entre alguns layouts de página e sua procura por hospedagem. Após várias histórias divertidas sobre sua carreira, Geraldo falou (em seu primeiro momento meio sério e pensativo): “a verdade… é que não importa bem pra quem eu trabalhasse, contanto que eu fizesse quadrinhos, porque é isso que eu amo fazer”. Uma frase impactante e que ficou bem marcada em mim e me ajudou a seguir fazendo quadrinhos.

FAÇA SE DIVERTINDO: Lá por meados de 2012-2013 eu comecei a trabalhar na mesma instituição que JJ Marreiro. Trabalhávamos na área da educação e, por várias vezes, quadrinhos foram nossa pauta de conversas e sugestões de uso como ferramentas educativas. JJ tem uma vasta experiência como professor e sempre trazia algo interessante aos materiais que produzíamos. Jota é uma das pessoas mais criativas que conheço, capaz de acessar uma infinidade de ideias tão rápido como um mágico puxa lenços de suas mangas. Com o tempo eu comecei a me perguntar porque ele não colocava essas ideias debaixo do braço e seguia pra conquistar o mundo por si mesmo. Sem que eu precisasse falar o que se passava em minha cabeça, a resposta veio numa conversa informal em que ele disse: “Ah os quadrinhos que faço aqui são trabalho. Eles possuem um direcionamento e objetivos pré-definidos por outro. Quando faço MEUS quadrinhos eu sigo uma regra: eu tenho de me divertir fazendo.” Assim entendi o quanto quadrinhos era algo bem maior, pessoal e libertador para ele.

FAÇA COM PROFISSIONALISMO: Daniel Brandão foi a primeira pessoa que resolveu me dar dinheiro para que eu estivesse no mercado de quadrinhos. Ele me contratou como professor de seu estúdio e por várias vezes pediu para escrever algo para ele ou revisar seus roteiros. Daniel é o tipo de pessoa que faz o que estiver ao seu alcance para ajudar aqueles que gosta, mas ele não faz isso de maneira leviana. Eu era um grande desconhecido quando fui convidado a ser professor de roteiro do Estúdio. Tinha escrito pouquíssimos e inexpressivos roteiros, mas mesmo assim ele insistiu que o cargo deveria ser meu. Certa vez, cheio de dúvidas e com certa baixa estima, perguntei a ele a razão de ter me escolhido e prontamente respondeu: “acima de tudo o que você acredita não ter (mas que eu sei que você tem), você é profissional, e isso é essencial em nosso meio”.

Sempre que me convidam a falar de quadrinhos cearenses eu cito essas três “regras”. As pessoas que me ensinaram não são mestres incorruptíveis da nona arte, que começaram sabendo e acertando todos os passos da jornada que é viver de quadrinhos no Brasil. Os 20 anos da revista que os lançou e publicitou estão aí pra provar isso. Acima de tudo, no entanto, são pessoas que descobriram seu lugar dentro do meio e não se negaram a dividir essa descoberta com outros, por isso sempre os cito como criadores dessas lições e que margeiam minha opinião e crença sobre quadrinhos.
(Matéria publicada originalmente na RIvista edição 170. Editora RISO)